Um Voto, Uma Vergonha, Uma Lágrima e Um Arrependimento

Lula, o senhor disse que preferia perder um voto a perder a vergonha na
cara. Bonito. O mundo deixou de ter importância. Só a grandiloqüência
importa. Agora são dez para as nove, e, como li nos jornais que iria jantar
com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, devem estar agora se
banqueteando, degustando, merecidamente, o manjar dos justos. Talvez estejam
derrubando algumas garrafas de uísque escocês e queimando alguns charutos
cubanos. O menino pobre e migrante nordestino ficou inexoravelmente para
trás, tão longe que sumiu na memória do tempo.

O senhor deve estar comentando com seu grande comensal: que papelão fez
o Duda hoje, hein, meu presidente! Teve o descaramento de começar a dizer a
verdade! Quem ele pensa que é? A Madre Tereza de Calcutá? Ao se entrar na
chuva, molha-se. Negar o molhado, mesmo que se esteja ensopado, faz parte do
jogo, não é mesmo?

Lula, hoje, 11 de agosto de 2005, você acabou, e seu fim foi muito, mas
muito mesmo, triste: no Brasil inteiro, apenas duas pessoas lutaram hoje de
verdade por você, e uma delas nem era brasileiro. A outra foi o Marcos
Valério, cavaleiro de lamentável figura que chegou a pedir a prisão (!!!) do
Duda Mendonça, ao saber que o outro publicitário rebelara-se contra o chefe.

Hoje é Dia do Estudante, mas proporia outra homenagem: que hoje passe a
ser o Dia do Choro. Eu acho que nunca, em nenhum país do mundo democrático
em tempo de paz, tantos parlamentares choraram juntos dentro do Parlamento.
Eu achava que o sonho tinha virado pó e o PT tinha virado suco, mas o fato é
que o Partido virou lágrimas e o sonho virou um muro de lamentações.

O ocaso da esperança e o despertar do medo fizeram-me lembrar do
Bandeira utópico: “Vou-me embora pra Venezuela, lá sou amigo do rei…”. O
que Lula teria tratado com Chávez? A tentativa desesperada, em último
suspiro do seu governo, de venezuelização do Brasil, ou a sua fuga para a
Venezuela, como, por exemplo, “exilado político deposto pelas elites
apoiadas pelos EUA”?

Voto, vergonha, lágrimas… E o arrependimento? Lula realmente
arrepende-se de alguma coisa? Com a palavra, o presidente; com o ouvido, o
povo brasileiro, ansioso por alguma lucidez, ainda ausente dos seus mais
recentes pronunciamentos.

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