Passageiro
Vários intelectuais que apoiaram o PT, muitos “históricos”, que
participaram da própria criação do Partido, emudeceram-se ao peso da
“história do sacrifício de um deus”, como diria o argentino Jorge Luis
Borges. Por quê?
Intelectuais não são intelectuais por mera formalidade: lêem, pesquisam,
estudam; além de ver, analisam e explicitam a realidade que os cerca,
“multifacetada, polimorfa, em crise permanente”, como gostam de falar.
Então, por quê?
Os intelectuais representam a fala, por excelência, de toda nação do mundo
civilizado. Logo, por que se calam num momento em que vozes lúcidas,
produzidas pelo Intelecto, fazem tanta falta? Estamos cansados de ler e
ouvir análises não convincentes por todos os lados.
“O presidente Lula não viu o que estava acontecendo no seu governo porque
ele se deslumbrou com o poder e só ficou viajando.” “Nesta crise, o mais
importante para o país é manter a ‘estabilidade’ econômica, custe o que
custar, doa a quem doer!” “Em algum momento do passado, o PT desviou-se de
sua finalidade ética original.” “O PT, desde sempre, foi este partido que aí
está, ninguém viu porque estavam todos cegos, é um mito essa história de
paraíso perdido.” E por aí vai, incluindo os meus próprios arremedos de
textos de análise política.
Não é fácil ter um projeto político, quase um projeto de vida, e depois
vê-lo dissolvendo-se em pó e em lágrimas. Sentir que o sonho não passou de
um sonho é o pior choque de realidade que pode acontecer a uma pessoa,
intelectual ou não. Ao despertarem no tempo presente, na vida presente, com
os homens presentes, como talvez dissesse Drummond, a matéria se lhes torna
de difícil compreensão, avessa a entendimentos fáceis. Muitos intelectuais
calam-se, então, atônitos com malas cheias de dinheiro sujo, oriundas do
crime organizado, inimagináveis mesmo nos seus piores pesadelos éticos.
Espero que não se calem para sempre: para isso, subverto o ônus da prova,
por deliberada provocação, e proponho um desafio: provem que estou errado.
Minha conclusão: sempre houve, desde o início, dois partidos, criados pela
mesma cúpula que hoje sobressai na consecução dos crimes que começam a ser
descobertos:
1. o PT - Partido dos Trabalhadores oficial, com registro na Justiça
Eleitoral, com filiados, organização regular e estrutura normal, formal,
visível, transparente; e
2. o PTP – PT-Paralelo, sem registro, sem filiados, com organização
irregular e estrutura anormal, informal, invisível, subterrânea.
Se eu estiver errado, paciência, valeu pela interessante reflexão
intelectual, e terei acrescentado apenas um pouquinho mais de culpa aos que
já a tem por demais; mas, se estiver correto (bingo!), em surto
megalomaníaco posso pensar que absolvo um pouco as esquerdas do jugo do erro
anunciado, descubro um caminho de ação para o país e quase anulo a minha
culpa, a dos intelectuais petistas, e a de mais uns cinqüenta e tantos
milhões de brasileiros que votaram não no PT-Paralelo, responsável pela
crise, mas no PT oficial, que, em última instância, não tem tanta culpa
assim.
À época da fundação dos dois PT, quem assistiu ao filme “Alien – O Oitavo
Passageiro” deve se lembrar quando um dos tripulantes da nave espacial,
feliz à mesa, conversa amenidades sobre o iminente retorno a sua casa. Num
momento, tudo está bem, no instante seguinte, o tripulante começa a ter
intensas convulsões, que culminam com a eclosão, no meio do seu peito, em
profusão de sangue espirrado, do Alien ainda filhote. Ao mundo foi ali
apresentado, com todas as cores e efeitos especiais do novo cinema de terror
cult e estilizado, um monstro que podia crescer, incólume e despercebido,
dentro de um corpo humano para, ao final, devorá-lo.
A metáfora é inevitável: o PTP é o Alien do PT. Lembram-se da continuação
do filme? Com a incompetência, desídia e jogo de interesses em sua captura,
o Alien cresceu e matou todos os tripulantes, menos uma. E continuou a
assombrar e exterminar todos que cruzaram seu caminho na série de filmes
seguintes. Até a sobrevivente original.
Como lutar contra o nosso Alien político que, definitivamente, se encontra
entre nós e que, se não for eliminado, fatalmente crescerá e nos exterminará
a todos? Lamentavelmente, não sei. Mas, considerando minha vasta experiência
com monstros de todas as espécies, penso em algumas coisas que nunca falham
(pelo menos nos filmes):
1. Monstros em geral adoram trevas e odeiam luzes.
2. Monstros são sempre egoístas, nunca solidários; nem mesmo com outros
monstros.
3. Por mais poderosos, monstros sempre têm um ponto fraco.
O aproveitamento da primeira fraqueza passa pelo conhecimento e, mais
importante ainda, pela difusão do conhecimento sobre o monstro. Neste
aspecto, temos uma vantagem imensa que se chama Internet. Mesmo que os
monstros dominem todos os meios de comunicação tradicionais (redes de TV,
rádios e jornais), ainda assim teríamos a Internet, que, como os ditadores
mais poderosos do mundo começam a descobrir, foi construída para continuar
funcionando mesmo sob ataque nuclear. Não é pouca coisa.
No caso do PT-Paralelo, a primeira coisa a se fazer é descobrir e tornar
público quem faz parte do PTP, quem faz parte do PT e quem faz parte dos
dois. Por exemplo:
1. Pertencem somente ao PT: Eduardo Suplicy, Walter Pinheiro.
2.Pertencem ao PTP e ao PT ao mesmo tempo: Lula da Silva, José Dirceu, Luiz
Gushiken.
3.Pertencem somente ao PTP: Marcos Valério, Toninho Barcelona.
Observem que quando o Valério se apresentou em Portugal como representante
do PT ele não estava assim tão longe da verdade.
A segunda coisa mais importante é descobrir, explicitar e tornar pública a
forma com que agem, o modus operandi, a operacionalização do dia-a-dia.
Escolados no sindicalismo levanta-abaixo braço, com certeza todas as ações
importantes supostamente tomadas em instâncias próprias pelo PT foram,
escudado em suposto “centralismo democrático”, decididas antes pelo PTP
sub-repticiamente em instâncias paralelas. A expulsão da senadora Heloísa
Helena e outros três deputados federais certamente foi decidida dessa forma.
Decisões que não podiam passar pelo PT, apenas pelo PT-Paralelo, também
devem ser investigadas, como a forma de se tratar o “problema” Celso Daniel.
A segunda fraqueza só pode ser explorada ou cortando-se o suprimento dos
seus recursos ou isolando-os uns dos outros. Monstros vingativos,
aprisionados e/ou com fome são os inimigos ideais dos outros monstros. Vejam
aquele filme, “Anjos da Noite”, em que os vampiros lutam contra os
lobisomens; é muito instrutivo nesses tempos de crise.
Se um Buratti preso já produz um estrago e tanto dentro do PTP, imaginem um
Dirceu algemado dentro de um camburão no noticiário nacional.
A terceira fraqueza é o calcanhar-de-aquiles, ou melhor, o “dólar na
cueca”. Todos envolvidos têm. Dinheiro sempre deixa rastro. A estratégia a
aplicar para explorar o ponto fraco de forma eficiente é sempre ter em mente
a fraqueza fundamental da legião do mal: uma vez que eliminemos um monstro,
podemos eliminar todos; ou nenhum ou todos caem, no conhecido efeito dominó
amalgamado ao pacto tácito das quadrilhas subterrâneas: ou todos se salvam,
ou ninguém se salva.
Teratologia apresentada, estudemos cenários. Alguns políticos parecem
acreditar que, como o governo Lula acabou e já perdeu a reeleição, não é
mais problema. Basta que fique, como um zumbi sorumbático, guardando para
eles, qual guarda-noturno morto-vivo, o Palácio e a “maravilhosa” economia
até o final de 2006. Políticos podem ser honestos, nunca ingênuos.
Como explicar tamanha ingenuidade? Medo de que o dólar vá a R$ 3,00, 4,00,
5,00? Medo de a Bolsa despencar 10, 15, 25%? Gritem para as crianças não
entrarem na piscina, pois tem uma sucuri lá dentro, mesmo que seus gritos
acordem a brava esposa que dorme ao lado. Ficar quieto e calado para evitar
um mal pode originar um mal significativamente maior.
Se o PT-Paralelo nunca se preocupou com responsabilidade fiscal e
estabilidade econômica no governo dos outros, por que haveria de passar,
como num passe de mágica, a preocupar-se agora? O governo do PT acabou, é
certo, mas o do PTP continua tão forte como nunca. Não é à toa que o Delúbio
continua a andar de carro blindado (e, ironia, pago pelo PT oficial!).
Continua mais poderoso que nunca, na sua função real de tesoureiro do PTP,
da qual nunca saiu.
Ninguém do epicentro do poder e da crise diz um “a” para melindrar qualquer
dos acusados porque continuam todos a estar onde sempre estiveram: na
direção do PTP, um partido com o melhor de todos os mundos: tem todo o poder
da República e nenhuma obrigação de prestar contas a ninguém.
Os tentáculos do PT-Paralelo abarcavam, e continuam a abarcar, da gestão de
orçamentos bilionários em estatais e ministérios a relações espúrias com
outros governos e empresas e organizações internacionais. Da rede de
doleiros à rede de bancos oficiais e quase-oficiais. Do submundo do crime
organizado à base parlamentar aliada com centenas de membros. Dos áulicos do
poder aos vendilhões de todos os matizes e nacionalidades.
Tais tentáculos petepistas podem agora estar, inclusive, paradoxalmente se
fortalecendo no submundo do crime e da política, posto que finalmente livre
da necessidade de manter as aparências que existia antes, com um álibi
inventado: “Pagamento de dívidas de campanhas”. Não descobriram ainda que o
único álibi válido é a inocência.
Agora, mesmo que temporariamente, não teriam como adormecer o PTP, dada a
reação em cadeia das chantagens e pressões que espocam por todos os lados,
em progressão geométrica, com vários operadores, laranjas e participantes
dos esquemas e respectivos cônjuges e demais parentes demandando por
proteção, dinheiro e outros recursos, para não abrir o bico.
Alguém acha que um dia dirão, estóicos, à oposição: “Aos vencedores, as
batatas.”? Os integrantes do PTP sabem que, fora do governo, estariam todos
presos. Sabem que, uma vez fora do governo, nunca mais voltarão.
Pergunto à oposição, aos jornalistas e intelectuais, e aos amigos na
Internet: o que podemos esperar do PT-Paralelo quando sua saída do manto do
poder corruptor for líquida, certa e iminente?
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