O Partido que Virou Suco e o Sonho que Virou Pó

“Lula-lá, brilha nossa estrela, Lula-lá, brilha a esperança, Lula-lá, num
Brasil criança, Lula-lá, brilha nos-sa es-tre-la…”

Quem viveu aquela época e não se lembra? Como o mundo era simples e não
sabíamos! Existiam “os outros”, todos os outros partidos, todos os outros
políticos, e ‘ele’, e ‘eles’. Tinham saído do seio dos trabalhadores e dos
intelectuais engajados na construção de um mundo melhor, não pertenciam às
velhas oligarquias políticas carcomidas e viciadas em práticas detestáveis.

Não tinham medo, não se vendiam, eram radicais e xiitas no trato com a
coisa pública, retos como uma linha reta, até chatos de tão íntegros. Não
ganhavam porque o mundo inteiro, com todo seu poderio e suas mídias, o
‘Sistema’ mancomunado a ‘forças ocultas’, não deixava. Mas não desistíamos.
Sofremos, sofríamos muito, porém o bom sofrimento dos esperançosos. Não
deixa de ser triste e irônico contemplar agora o mar de cinismo, em
comparação retrospectiva. Melancólico, até. Deprimente. Vergonhoso.

O que está acontecendo? Vemos, ouvimos, lemos, e não acreditamos. Os fatos
atropelam os prognósticos mais maledicentes, as “explicações” apresentadas,
de tão ostensivamente mentirosas, assassinam as presunções de inocência mais
condescendentes.

A simplicidade do modus operandi que se vislumbra com clareza cada vez mais
meridiana é impressionante: contratos superfaturados com o setor público
financiam, por meio de laranjas, enriquecimento ilícito dos envolvidos e
pagam maioria parlamentar que visa a, em última instância, controlar o
parlamento e proteger o esquema, num círculo vicioso que, se desse certo,
tornaria o modelo republicano-democrático brasileiro refém de si mesmo, em
tenebrosa espiral de corrupção institucionalizada.

Acho que esta é a primeira crise em que há perguntas das quais temos medo
da resposta. O atual presidente da República é a pessoa mais estulta ou a
mais dissimulada da face da Terra? Infelizmente, não há mais alternativas.
Vi o teatro em que encenou, de Paris (Oh, ironia das ironias!) uma
“entrevista” semelhante a um trabalho escolar de uma adolescente que, pelo
teor das ‘perguntas’ feitas, seria um poço de ingenuidade e moraria no
planeta Marte.

Qual a síntese do que ele falou? “- Os crimes cometidos pela cúpula
do PT são os que todos os partidos cometem, e eu não tenho nada com isso.”

Quem diria? Nosso querido presidente Lula não tem nenhuma cerimônia em
lançar na cova dos leões seus mais próximos amigos e correligionários, gente
que o acompanha há mais de vinte anos, desde que salve a própria pele. Ele
não aparenta nenhuma surpresa, nenhuma tristeza (nem chegou a chorar,
repararam?), nenhuma raiva em ter sido tão perfidamente traído pelos
“companheiros” que destruíram sua obra da vida inteira. Com frases
visivelmente artificiais, tenta explicar que a direção do Partido ficou à
mercê de pessoas desqualificadas, quando seus melhores quadros foram para o
governo ou eleitos.

A farsa evidentemente combinada da trilogia televisa Valério-Delúbio-Lula
chega a doer na inteligência. Descobrimos aliviados que, afinal, não há nada
de mais, só um crimezinho bobo, “dinheiro não contabilizado” em campanhas
eleitorais do PT e de partidos da base de sustentação do governo, oriundo de
empréstimos bancários clandestinos, patrocinados por um dos maiores
fornecedores do governo. Só isso. (Pasmem!)

Inimigos mortais do PT e do governo Lula passaram a apoiá-lo no
Congresso Nacional por meio de mágica. Partidos visceralmente fisiológicos
aumentaram de tamanho e passaram a defender visceralmente o governo, por
idealismo. Políticos que até ontem eram chamados pública e estridentemente
por Lula e quase todos no PT de “picaretas” passaram a bajular e seguir
alegremente o governo por altruísmo e pelo bem do país. Pessoas outrora
julgadas facínoras pelo PT metamorfosearam-se em administradores
competentes e íntegros das empresas publicas, para defesa da moralidade na
aplicação dos bilhões dos seus orçamentos. Por favor, tenham dó!

Se um raio de bom senso caísse na jornalista de mentirinha que entrevistou
de mentirinha o Lula de mentirinha em Paris, certamente ela perguntaria, de
chofre: “O Sr. sabe de onde veio o dinheiro gasto na sua campanha e qual a
motivação deste dinheiro? O Sr. sabe por que e como conseguiu maioria
parlamentar? O Sr. sabe por que o PT e todos os outros partidos têm tanto
interesse em nomear pessoas para cargos-chave nas estatais e ministérios?”
Seria salutar para o país ouvi-lo sobre o que ele sabe e pensa a respeito
destes assuntos.

O fato fundamental para se entender a crise, que ilumina fortemente todos
os outros fatos, é tão verdadeiro e de conhecimento público que faz apenas
três meses, de tão ululantemente óbvio (sem trocadilho), ninguém, nem
jornalistas marcianos, pensavam por um átimo sequer fosse diferente: havia
um “núcleo duro” dentro do núcleo do poder no Planalto e nas planícies.

Nada acontecia, nada podia acontecer de importante no governo, ou no
PT, ou na base aliada, que não passasse pela ‘santíssima trindade’
decisória: Lula, José Dirceu e Luiz Gushiken.. Quase todos no governo e no
PT estariam agora acometidos de amnésia coletiva, ao “não se lembrar”, “não
saber”, “não ter sido informado”, “não ter ouvido, não ter visto, não ter
lido”?

Na hierarquia de comando, Delúbio Soares, Sílvio Pereira e Marcelo Sereno
operavam, embora cada qual na sua área, juntos e coordenados a José Genoino,
e todos batiam continência para José Dirceu, o qual, por sua vez, respondia
ao presidente Lula, que se aconselhava com Gushiken.

Marcos Valério, no duro mecanismo dos mandos e desmandos, seria
apenas um laranja operador do esquema que ganhou imenso poder pela
facilidade, voracidade e destemor que lidava com relações promíscuas com
poderosos de todos os naipes e com quantias fabulosas de dinheiro vivo e em
transações bancárias nebulosas, servindo como elo perfeito entre o dinheiro
que saía das estatais e outras entidades por meio de contratos fraudulentos
e os beneficiários na outra ponta.

Ademais, Valério lidava com um elemento perfeito para contratos
superfaturados, pois se existe um produto imponderável e elusivo em
contratos com entes públicos e empresas estatais, é a chamada “publicidade
institucional”: o que é isso, como medi-la, como quantificá-la e
precificá-la, como fiscalizar sua necessidade, sua entrega e sua quantidade
e qualidade?

O que mais virá? Que sustos ainda levaremos com a análise da gestão dos
fundos de previdência complementar das estatais? Que surpresas guardam os
contratos de terceirização de prestação de serviços e de fornecimento de
bens e de outros serviços a estatais e a outros entes públicos? Um frio na
espinha nos percorre quando pensamos nos concessionários e permissionários
de serviços públicos, como empresas de transporte coletivo, de coleta de
lixo (lembram-se do assassinato de Celso Daniel?) e de rádio e teledifusão.
Nas empreiteiras das grandes obras públicas e fornecedores de
infra-estrutura, então, nem ousamos imaginar…

Haveria vários valérios, e em diferentes níveis da Administração
Pública? Amainada a crise, outros continuarão a ‘valeriar’ dinheiro para
Brasília, outras capitais e outros municípios?

Alguns dizem que estamos nos aproximando perigosamente da era Collor. Nada
mais distante da realidade: Collor foi um nada no Brasil: no início de 1989,
era ninguém; no início de 1993, era ninguém. Não tinha passado, não tinha
presente, não tinha futuro. O impeachment do Lula, mesmo que seu verdadeiro
nome fosse Lulla, seria um desastre inimaginavelmente pior. Lula não só tem
história, como fez, faz e é história. É, a um só tempo, sujeito e símbolo.
Essa coisa amorfa e extemporânea, em que eu e milhões ainda acreditamos,
chamada “esquerda política”, sofreria um débâcle e tanto, em terremoto com
epicentro no Brasil, mas que levaria alguma devastação política a vários
países, estendendo-se pela América do Sul e outros continentes.

O sonho da transformação do mundo por intermédio da política sofreria um
duro revés. Porém, dada a necessidade da luz, faça-se a luz. Se já é sofrido
cortar na própria carne, mais sofrido ainda é cortar nos próprios sonhos.
Mas pode ser que, por inevitável, não tenhamos outro caminho a seguir, pelo
bem da nossa tão arduamente construída república democrática, ainda que
venhamos a cicatrizar somente daqui a uma ou duas gerações. Não fazer o que
é necessário pode fazer com que venhamos a sangrar para sempre, sem nunca
cicatrizar?

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