A chuva ameaça na janela, impaciente. Os ventos zunem, sôfregos. As nuvens admoestam-nos com vozes roucas e potentes. Os céus estão zangados lá fora: o Amor, fruto das forças da natureza, não pode morrer!

Não foi fácil trazê-los até aqui, bradam todas as coisas em volta, ecoa a mensagem em cada molécula que faz a vida. Vocês não têm o direito de ser infelizes depois de tantos raios do sol improvável e inúmeras intervenções das conspirações dos espíritos ateus. Deus não existe e a malignidade impera, mas, nos redemoinhos das incertezas, estamos juntos, e não há outro destino possível, ainda que existissem cem bilhões elevado a cem bilhões de universos.

As palavras passam, viramos pó do mofo dos móveis velhos que restarão a nós cinqüenta anos após nossa ida, e tudo terá sido em vão no engano das armadilhas das frases ouvidas, mas não ditas; da maldade sentida, mas não engendrada; da humilhação impingida, mas não desejada.

Quem terá tido razão? Quem terá dito errado? Quem terá chorado e não compreendido? Perguntas atrozes e superficiais, respostas apoteóticas e insignificantes, olhares perdidos e concentrados… É a vida, minha Princesa, nossa difícil e bela vida de todo dia… tão besta, mas tão maravilhosa… tão paradoxal, mas tão explicável… tão sofrida, mas tão prazerosa… tão supérflua, mas tão imprescindível…

(No Brasil de Lula, a Poesia é a única forma de provar-me a mim mesmo que ainda sou humano – e capaz de sentimentos um pouco mais elevados que o desprezo que sinto pela degenerescência selvagem do lulo-petismo mais nauseabundo, que vai imperando em todos os cantos…)