Lula sentenciou que a crise financeira mundial não “cruzaria o Atlântico”, a partir dos Estados Unidos, e, assim, não chegaria ao Brasil. Impropriedade geopolítica perdoada, na medida em que saber que não existe um oceano a separar-nos da maior potência econômica do planeta pode não fazer parte do que se esperaria de um presidente da República que supostamente “busca inserir o Brasil nas instâncias máximas do poder mundial”. Importa, entretanto, conhecer os motivos de tal conclusão tão pueril, leviana e mal-alinhavada.

Alguns leitores do Blog poderiam achar que tenho birra com Lula, pois a simbólica viagem da crise entre os EUA e nosso País poderia sim ser feita pelo Oceano Atlântico, embora não o cruzando. Em verdade, acredito que, de forma tortuosa, o equívoco de Lula explicita que, de fato, existe mesmo um oceano a separar-nos dos Estados Unidos, mas, ao invés do Atlântico, um oceano de besteiras, oportunismos e más intenções.

Teriam sido as eleições municipais? Ou já seriam preliminares da batalha de 2010? Em termos de comportamento político, Lula, sabe-se pelo menos desde os casos Waldomiro Diniz e Mensalão, não peca pela “ética pequeno-burguesa” nem pela “honestidade dos bobocas” ou “moralismo da Direita”. Mas parece que não só o seu tradicional oportunismo político explicaria essa gafe do tipo tão habitual nele (tudo que não lhe convém transforma-se em “marolinha” no seu discurso palanqueiro!).

Parece que a megalomania de Lula está contaminando até mesmo seu sentimento da própria sapiência. Lula chama o presidente dos EUA de “meu filho” e diz para ele cuidar de “sua crise”. Diz que vai ensinar os maiores líderes mundiais a resolver os problemas planetários. Decreta que a ONU não soluciona o conflito Israel-Palestina por ser “covarde”, sintomaticamente utilizando verbete pródigo em seu estimado colega Hugo Chávez nas catilinárias contra o “filhote de Lula”, George W. Bush.

Com sua sofomania apedêutica, Lula tem armado bomba-relógio de efeitos imprevisíveis no futuro, ao criar, nas camadas mais pobres e desinformadas da população, o pior sentimento que se pode nutrir em relação ao Estado (confundido com o chefe do Poder Executivo): o de que ele é o único responsável pela prosperidade ou decadência material de sua condição.

Não se trata de efeito colateral de suas políticas de inclusão assistencial-populistas. Faz parte de um projeto de dominação ideológica do setor onde se concentra a maioria eleitoral do País, em uma genial, mas extremamente perigosa, urdidura de controle dos votos, o que, inevitavelmente, leva ao controle político de todas as instâncias representativas da nossa ainda frágil democracia por uma única pessoa, acima dos próprios partidos políticos, dos Poderes constituídos e das próprias instituições republicanas. Acima, enfim, do bem e do mal!

Não obstante, a maioria das pessoas informadas acha que a sofomania de Lula é apenas negócio engraçado a entrar para o folclore político igual a tantos outros exemplos de falas ridículas de políticos ignorantes e semi-alfabetizados. Enganam-se.

Em Lula tal sentimento, agravado por sua popularidade estratosférica e por seu projeto salvador da pátria, ao invés de piadas de salão, pode levar a uma tragédia política de grandes proporções: ele se acha o único capaz de presidir o Brasil, e tal sentimento pode levá-lo a impor seu terceiro mandato consecutivo, custe os mensalões, chantagens, gastos públicos criminosos, irresponsabilidades fiscais e até os assassinatos seletivos (não nos esqueçamos nunca de Celso Daniel, Toninho do PT e outros) que forem necessários.