Conhecemo-nos entre destroços
Ruínas sem vida de uma escola
Morta à força pelos donos do mundo

Foi numa manhã clara
Que corria entre as árvores no pátio
Entre bancos e pessoas, nas salas
Uma parte dela na Sala 109 da ETFGo
Vi seus dois olhos, e eram como
Duas Tochas (de um relâmpago ou de um fogo)

Uma manhã qualquer de 1983
Que se perdeu lenta nos corredores
Da vida e da escola
Entre flores e favelas

(Mas eu não quis chorar nesse tempo)

É absurdo estar-se vivo:
Razoável ser assim
Meio gênio, meio canalha…
Vadiar mil anos de solidão

Porém, sutilmente, sem se notar,
Na escuridão de noites sem lua
E sem estrelas
As duas Tochas (de relâmpago ou fogo)
Incendiaram meus conceitos
Minhas fórmulas, minhas teses e lábios

E o incêndio não podia me consumir:
Brincava com ele na tentativa
De o suprimir
Reprimia-o, controlava-o, equacionava-o

Mas toda a disciplina foi em vão:
Ele anda solto no pátio
Vagabundo como anjo boêmio
No sistema de amor e desânimo
Em manhãs de verão do séc. vinte

Quanta coisa ele quer sentir…
(Quanto lhe será negado?)

—xxx—xxx—xxx—

Amei você numa manhã perdida
Só tive seus olhos
Nem seus sonhos nem sua alma
Você não soube:
Só tive seus olhos
Na manhã cheia de guerras e fomes
De 1983

E era como se não tivesse sentido
Amar uma pessoa
Numa escola tão pequena

Era como se não tivesse sentido
Brincar (fingir brincar) com uma Edienir
Numa cidade tão pequena e distante
Em planeta minúsculo, esquecido do Universo
Nas manhãs ensolaradas e perdidas do verão de 83

—xxx—xxx—xxx—

(Edienir, minha musa de 1983, colega linda e meiga no curso de Técnico em Telecomunicações que fizemos na Escola Técnica Federal de Goiás, foi, cerca de dez anos após esse poema, brutalmente estuprada e morta no interior do Estado, por um fazendeiro vizinho à propriedade de sua família. Lido em retrospectiva, alguns trechos do poema parecem pressentir a tragédia. Que, a propósito, no nosso triste País, de tão banal, parece coisa normal… Mas não é.)