Sozinho esperando na praça
Alguém que não vem, alguém que ficou
Os carros trafegam na avenida
Na esquina suja um gosto de amor
De amor, de amor, de amor…
Vocês não viram como estava frio
Você que ficou procurando fumaça
Você que partiu para longes
Você que não quis ou só quis se casar
Você que não estudou Física Nuclear
Nuclear, nuclear, nuclear…
Onde estavam todos vocês?
Que não me viram chorar na praça
Sob sistemas estelares que me chamavam
Mas eu não podia abandonar a espera
A espera, a espera, a espera…
Sozinho esperando na praça
Alguém que se chama Revolução
Um estranho sem ninho, uma história no chão
Na praça, sem nenhuma esperança
Dois olhos dentro da noite
Fitando a escuridão
A escuridão, a escuridão, a escuridão…
Será que você chegou?
Será que andamos pela rua
Assoviando canções ao vento?
O que vai acontecer quando entrar setembro?
Sozinho esperando na praça
As estrelas varreram todo meu sentimento
Meu sentimento, sentimento, sentimento…
(Canção que tentei compor em 1982)
O meu nome é Amor
Não tenho outro de cor
Somos muitos amores
Iguais em tudo na vida
No mesmo egoísmo grande
Que de custo fica em dívida
Na mesma esperança crescida
Sobre as mesmas ilusões finas
E iguais também porque o caderno
Que escrevemos tem poucas linhas.
E se somos Amores
Iguais em tudo na vida
Morremos de morte igual
Mesma morte mofina:
Que é a morte de que se morre
De desconfiança antes da mentira
De ciúme antes da ferida
De medo um pouco por dia
(De niilismo e preguiça
É que a morte mofina
Ataca em qualquer sentimento
E até paixão recolhida).
Somos muitos Amores
Iguais em tudo e na sina:
A de abrandar estas pedras
Gozando-se muito em cima
A de tentar despertar
Gente sempre mais perdida
A de querer arrancar
Alguma beleza da cinza.
Mas, para que me conheça
Melhor, minha senhorita
E melhor possa entender
A direção de minha trilha
Passo a ser o Amor
Que é eterno em nossa vida.
(Pequena homenagem a João Cabral de Melo Neto, de 1982)
No início dos anos oitenta, quando foi criado, o PT não valia
UMA MISSA
Nos meados da década de noventa, ao representar (literalmente) a esperança da ética na política, o PT tinha
UMA MISSÃO
Ao irromper o novo milênio e chegar ao poder político máximo no Brasil, o PT, como paga por sua participação ou
OMISSÃO
conquistou, finalmente,
UMA COMISSÃO.
Quem tem o desprazer de privar da intimidade de Lula diz que ele, à menor contrariedade, trata seus empregados com palavrões, xingamentos e gesticulação impublicáveis. Quanto mais popularidade lhe é atribuída por pesquisas de avaliação do governo, mais se sente onipotente, vencedor, e responsável por tudo de bom que acontece no País, vendo todos brasileiros, inclusive autoridades dos outros Poderes, como seres subalternos e, quando críticos, opositores e mal-agradecidos.
O mais recente destempero verbo-presidencial, no entanto, guarda algo mais que a postura tirano-irada descrita acima. Lula, sempre em cima de palanques, discursando para seus pobres eleitores, empunhando sua metralhadora cheia de mágoas (mas sem nada de Cazuza), tem caçado brigas ora com “azelite”, ora com a oposição, com a imprensa, com o Congresso, até com “us pulíticu”…, e, agora, com o Judiciário. Aonde Lula, que de bobo só tem o jeito, o andado e o palavreado, quer chegar?
Dr. Inácio é o único presidente da República que, no primeiro segundo após começar a falar, sabe-se com certeza se o discurso foi escrito por outros e decorado por ele, ou se fala por si, “de improviso”, como a imprensa diz, eufemística. Pois algo está muito errado quando, “de improviso”, Lula filosofa com frases tão profundas e elegantes como “si ele qué sê pulíticu, renuncia e si candidata e vai falá as bobage qui quizé, mais num fiqui si metenu o nariz nas pulítica duzotro!”, e tudo a respeito de magistrado que simplesmente declarou, quase tautológico, que a prática de uma ilegalidade é ilegal.
Lula, o político dos políticos, tem (ironia profunda!) visão totalmente depreciativa dos políticos: para falar as “bobage qui a genti quizé”, temos que virar um! Mas carece-lhe senso crítico mínimo ao enfiar os dedos nos olhos do ministro do STF Marco Aurélio Mello, presidente do TSE, por sua simples advertência de que incremento de políticas assistencialistas em ano de eleições é vedado pela legislação eleitoral, mormente com as características eleitoreiras ululantemente óbvias do programa em comento, Territórios da Vilania, meio matreiro de usar os municípios mais pobres do País para despejar dinheiro público em campanhas políticas dos candidatos a prefeito da base a ele aliada.
Com as bobagens que tem falado, e com o que tem feito com a máquina governamental, aonde o genial político Lula quer chegar?
Considerando o candidato da base aliada que pretende mais forte à sua sucessão em 2010, reles governanta de palácio, Dr. Lula quer o de sempre, o carma que o persegue desde que “entrou na política para dar um jeito nesse País!”: emplacar um 3º mandato presidencial e dali não sair mais, nunca mais, como o corvo agourento de Poe: never more… never more… never more…