Um leitor do Blog acusou-me de “moralismo” contra o Governo Lula. Tentei explicar-lhe que eu não fazia juízo de valor sobre as condutas morais de Lula ou de qualquer membro do seu governo. Apenas se tentava, no Blog, destacar as escolhas feitas por eles quando confrontados com certos dilemas éticos.
O leitor objetou que “dilemas éticos” são, em realidade, “dilemas morais” disfarçados. Há um profundo equívoco nessa mistura confusa dos dois conceitos. Convenci o leitor, finalmente, somente quando apelei a exemplos bastante elucidativos da diferença (Obs.: os casos foram completamente inventados e não guardam nenhuma relação com quaisquer pessoas ou fatos reais):
Contei-lhe que uma conhecida, pessoa extremamente ética, Procuradora do Estado, chefe do setor responsável pela fiscalização do uso dos bens públicos, flagrou o marido, fiscal da Secretaria da Fazenda, utilizando veículo funcional para levar filhos ao colégio, ir a shoppings, viagens a passeio, etc., inclusive nas férias, com gasolina, seguro e manutenção do carro por conta do Estado. Ao tentar falar com o marido, bom pai, querido por todos e por quem é extremamente apaixonada, ouviu um “– Isso é besteira! Esquece, faz que não vê! Todo mundo faz!”
O que ela deve fazer? Rumores sobre o marido, sujeito medíocre nomeado em alto cargo de chefia, estar envolvido em esquema de arrecadação irregular de contribuições de empresários para campanhas políticas e ocultação de patrimônio, são apenas rumores sem consistência, ela me garantiu. Mas o uso irregular e ilegal do veículo funcional está plenamente caracterizado. O que ela deve fazer? Dilema ético.
Pouco depois, ela descobriu também que o marido mantinha em segredo relacionamento estável com outra mulher, com quem, inclusive, tem filhos. Novamente, o que ela deve fazer? Dilema moral.
Diferença? Ambos os dilemas envolvem escolhas sumamente difíceis, mas um envolve recursos ou valores públicos, outro não, apenas se limitando a recursos ou valores privados. Diferença simples, escolhas complicadíssimas…