“– Não é um sapato de cromo alemão que os franciscanos querem, mas um chinelinho novo. Pode ser até usado, o que ninguém agüenta mais é machucar o pé.”
(senador Wellington Salgado (PMDB-MG), fingindo-se doce ao explicar a recente rebelião chantagista do seu partido contra o governo Lula, “franciscanos” em busca de mais do de sempre)
Foto dia 19/09/2007, dentro do Palácio do Planalto: Lula Marques/Folha

Lula e Renan Felizes com a Absolvição mais Abjeta da História da República.
Foto dia 20/09/2007, na porta do Palácio do Planalto: Gustavo Miranda/Agência O Globo

Trabalhador Pobre, Desempregado e com Fome, Preso ao Pedir uma Audiência com Lula.
Foto dia 19/09/2007, dentro do Palácio do Planalto: Lula Marques/Folha

Lula e Renan Felizes por Serem os Homens Mais Poderosos da República.
O Garanhão das Alagoas está tendo dificuldades em pôr o Sapo Barbudo de quatro, mas tem começado a cobrar, irritado: “– Ajoelhô, cabra da peste, tem que rezá!!!”
Lula, em conluio com seus “líderes” no Senado Aloízio Mercadante, Ideli Salvatti e outros menos ostensivos, em plena sessão plenária de julgamento do pedido de cassação apresentado pelo Conselho de Ética, fez um belo trabalho. Constrangeu, cooptou e coonestou membros da base aliada para que perpetrassem o crime de lesa-pátria de salvar o indescriminalizável Renan Calheiros, que deve ser o político que mais passeou pelo Código Penal na história da ironicamente chamada “Câmara Alta” brasileira. E olhe que a concorrência é braba!
Nesse jogo sujo de ameaças, chantagens e pressões, Lula conseguiu o inimaginável: transformar seis honrados senadores e senadoras do “Partido mais ético que existe” (segundo palavras suas), em sujeitos lesos, aloprados, alienados que mesmo escondidos e protegidos pelo segredo do pecado mais mortal, covardemente eximiram-se de ser contra, a favor, ou muito pelo contrário. Em realidade, votaram a favor do nada, contra coisa alguma, pois não teriam entendido ainda nenhuma das dezenas de piadas de mau-gosto pelas quais gargalha Calheiros há mais de cem dias.
O absurdo chegou a tal ponto que apenas a “explicação” dada por um dos lesos aloprados alienados já seria suficiente para abrir-lhe um Processo por Quebra de Decoro Parlamentar, pela mentira patente aos seus pares, pelo estelionato contra seus eleitores e seu País, cinismo descarado de um esfarrapado discurso tipo “abstive-me de votar porque não sei ainda se Renan é inocente ou culpado…” (Pasme-se!!!: após isso, ele poderia, sem que ninguém mais se surpreendesse, continuar com “… Por falar nisso, Renan não era um jogador de vôlei?…”)
Não deve existir viva-alma no Brasil que seja tão estulta a ponto de achar que ao menos um único dos sintomaticamente quarenta senadores que votaram pela absolvição do animal o fez por considerá-lo “inocente”. Votou-se por interesses escusos, barganhas políticas, conchavos, toma-lá-dá-cá, é-dando-que-se-recebe, medo, impunidades cruzadas, bicos calados, “governabilidade” do caos, cargos no governo, emendas no Orçamento, dinheiro vivo, bois, gente e terras em Alagoas, terrenos públicos, corpos de aluguel, sexo com jornalistas, sonhos-de-valsa, cortes de cetim, sabe-se lá Deus o que mais… Mas ninguém seria tão estúpido a ponto de ser-lhe favorável por considerá-lo “inocente”! A meia dúzia envergonhada da própria sem-vergonhice seria mais estúpida que a própria estupidez em pessoa?
Portanto, tenha piedade de nossos sofridos corações e mentes, caro senador mercador, que vende seu País “tão barato que a gente nem acredita”, como cantava o poeta quando o Brasil ainda era apenas um pivete com navalha na mão tentando participar da festa dos ricos! E, por favor, não nos venha com a cantilena surrada e mau-caráter de que todos fazem tudo impunes, logo, todos podem tudo impunemente: não se esperava, por óbvio, uma gota sequer de dignidade dos setores tradicionalmente envolvidos com as redes criminosas político-público-privadas, cujos representantes políticos banqueteiam-se tanto na capacho-oposição quanto na oportunismo-situação, mas se esperava ao menos uma partícula de poeira de honestidade do “Partido mais ético que existe”.
Pois Lula, ao salvar Renan, ainda que apenas no primeiro round, conseguiu quase repetir seu extraordinário feito de quando salvou quase toda a quadrilha do mensalão no plenário da Câmara dos Deputados, nessas epopéias salvando-se a si próprio e conseguindo a proeza de empobrecer, adoecer e enfear a já não muito saudável e formosa pobre democracia brasileira (que ele acha que pode destruir, já que o “dado concreto” em seu delírio epifânico é que a construiu praticamente sozinho, contra tudo e contra todos!)
Entretanto, porém, todavia, Renan conhece por demais Lula e seu partidinho miserável. Por isso Renan pretende ser uma espécie de Pedro Malazarte da política e safar-se ileso de todas as situações, por mais desesperadoras que sejam, de todas as acusações, por mais consistentes que sejam, por pura esperteza: ciente de que “a mão que balança o berço é a mão que domina o mundo”, sabe ser a mão que segura a “faca no pescoço” de Lula a que domina o governo. Informações explosivas, os intestinos de partes ainda não conhecidas dos conhecidos crimes planalto-parlamentares, valem ouro, e, com ouro, tudo se compra, tudo se tem, tudo se conquista, de mulheres, cadeiras e fazendas lindas a absolvições espetaculares.
Renan não deixará Lula em paz enquanto não virar um tipo de José Dirceu que deu certo: com poder imenso no governo, mas operando às claras, no cargo, sem estar nas sombras e nos bastidores, mas no meio do palco, no centro dos holofotes, no circo do sol, não no circuito da solidão, recebendo abraçado triunfante ao chefe todos os aplausos do respeitável público Brasil!
A maioria dos senadores que absolveram Renan Calheiros cometeu o crime perfeito: completamente secreto, sem sequer uma testemunha e sem qualquer registro, com negativa absoluta de autoria.
Se não apenas o voto, mas a sessão plenária inteira do Senado em que se vai decidir a cassação do mandato de Renan Calheiros for mesmo secreta, e resultar na sua absolvição, só restará uma alternativa a essa pobre e triste Casa mal-assombrada:
– Ter, a partir de então, todas – absolutamente todas – as suas sessões, no Plenário e nas Comissões, completamente secretas, totalmente fechadas à mídia e ao povo brasileiro, plenamente escondidas e protegidas das pressões cruéis dos olhos e ouvidos perversos da sociedade civil, dos cidadãos e eleitores!!!