Em um país com graves deficiências no sistema educacional, miséria galopante, custo-país belga e retorno africano em investimentos e serviços públicos; distribuição indecente de renda; sistema falido de saúde pública; desperdício monumental de recursos naturais, como o bem mais precioso do século XXI, a água potável; prostituição infantil, trabalho escravo, tráfico de seres humanos, violência contra crianças e mulheres, conflitos sanguinários no meio rural, comércio de órgãos humanos; criminalidade imensa, cruel e assustadora; corrupção e apropriação do público pelo privado, desde a cúpula do poder político-econômico até os escalões mais inferiores; além do completo desprezo pelos Direitos Humanos (também dos criminosos, mas principalmente dos das suas vítimas), uma minha conhecida, para “melhorar o mundo!”, resolveu defender os “direitos” dos animais: deixou de comer carne, ovos e outros produtos de origem animal; participa de campanhas para que não mais se usem animais em testes de novos remédios; podia ter dez calças jeans, mas tem apenas duas (!!!).

Em que pese o sofrimento imposto aos animais pela indústria de alimentos (geralmente causado por métodos antiéticos de criação e engorda e/ou técnicas de manejo e abate obsoletas e de baixa tecnologia) e por pesquisas dispensáveis e aulas desnecessárias, por puro capricho de professores e pesquisadores sádicos ou insensíveis, o sofrimento humano não seria, em qualquer ordem de prioridades para melhorar o mundo, mais importante?

Como não podia deixar de ser, e em decorrência quase lógica de sua confusa “ordem de prioridades”, ela defende o governo Lula e o PT da “insidiosa campanha” movida pela “elite” e a imprensa “de direita” contra o “poder popular” que pela primeira vez chegou à Presidência da República e está “mudando” o Brasil, “incomodando os poderosos”.

Pensando bem, minha conhecida, cristã-nova em matéria de vegetarianismo, parece muito o Lula, com o seu gogó mágico e ações invisíveis em prol da melhoria de qualquer coisa no País que não o seu próprio padrão de vida. Ela quer melhorar o mundo inteiro, mas não sabe nem onde se encontra seu umbigo, não se preocupando com questões óbvias e simples, mas fundamentais, tipo perguntas sobre o que, sem aproveitamento de animais de corte para alimentação humana e ratos e outros mamíferos de laboratório para teste de novas terapias, o que aconteceria com:

1. Quem leva apenas arroz, feijão, tomate, bife e ovo frito na marmita, cuja única fonte de proteína acessível, que aprecia, sabe preparar e pode comprar é animal?

2. Doentes terminais que sofrem muito, sentem dores lancinantes, mas esperam, para simplesmente continuar vivos, um milagre, mesmo que improvável, de um novo remédio em fase de teste de toxicidade (teste esse perigosíssimo se feito diretamente em humanos, o que, sem os ratos, inviabilizaria a criação da maioria dos novos remédios e tratamentos)?

3. Os rebanhos de milhões de cabeças para corte se todos nós deixássemos de ser “assassinos ou cúmplices dos assassinos” dos animais e virássemos vegetarianos?

( “Que problema esses rebanhos!…” devem incomodar-se os vegetarianos. Deveríamos simplesmente exterminá-los? Deixar que morressem de fome e de doenças? Permitir que vivam até a velhice com “dignidade”, tirando recursos dos já escassos orçamentos públicos para mantê-los a fundo perdido? Sem motivação comercial, não tenderiam à extinção, o que não é propriamente um destino feliz para qualquer espécie? Ao substituí-los por, digamos, soja, a descomunal área necessária a ser plantada não produziria danos ambientais de conseqüências imprevisíveis? )

Enfim, minha conhecida, “esquerdista por amor ao povo e vegetariana por amor aos animais!”, anda somente de carro zero-quilômetro e mora em uma mansão de quatrocentos metros quadrados, em condomínio de luxo, mas censura como “consumista” quem tem meia dúzia de calças jeans. Como é fácil mudar o mundo e melhorar a humanidade!!!