Ludwig Lazar Zamenhof, o médico judeu-polonês criador do Esperanto, ao final do séc. XIX, acreditava na utopia de que uma língua artificial, sem história, com pouquíssima gramática e vocabulário emprestado das línguas tradicionais, poderia unir a humanidade e melhorar o mundo, por meio de comunicação verbal compreendida por todos, numa Babel ao contrário.
Menos ambicioso, proponho apenas a criação de um partido político artificial, o PE – Partido da Ética, sem má história, com pouquíssimos recursos e plantel emprestado de outros partidos, para, por meio de atuação defendida por todos, unir os políticos éticos e melhorar a política brasileira, numa eleição 2006 ao contrário.
Andam dizendo que Lula é e sempre foi maior que o PT. Trata-se do engano sintomático da nossa encruzilhada moral dentro da cilada dos atuais atentados terroristas aos pudores políticos. Lula, quando muito do tamanho de um anão sanguessuga mensaleiro, é, nos aspectos relevantes de probidade e eficiência administrativa, muito menor que o PT, mas é universalmente considerado maior por ter mais votos, ainda que agora do pior tipo possível, dos currais clientelista, assistencialista, coronelista e fisiológico.
Chegamos, enfim, ao fundo do poço? Infelizmente, o planeta Terra é um esferóide: um poço cavado na superfície do Brasil pode, em teoria, ficar cada vez mais profundo, até chegar ao Japão, sem ter, definitivamente, fim! E no fundo de um poço, muito mais provável que molas, deve haver lama e/ou lixo. Lula, em relação à ética, chegou ao fundo do poço atual, por certo, mas nada indica que não vá cavá-lo ainda mais no seu possível segundo mandato presidencial.
Lula tem brandido com magistralidade sua única defesa possível ante os escândalos perpetrados por seu governo: a tese de que, no campo ético, não passaria de uma espécie de FHC semi-alfabetizado, meio ébrio em meio à geral de algum estádio ou participando de alguma pelada de futebol em churrasco de fim de semana, enquanto os “traidores” agiam às escondidas, furtivos, infiltrados em posições importantes e apunhalando-o pelas costas. Em respeito ao seu cargo, e às investigações em curso, não poderia dizer quem são, mas seriam “poucos”. Considerando que não poderia participar de debates ou conceder entrevistas individuais ou coletivas também em “respeito ao cargo”, conclui-se que nunca houve na história do País presidente tão “respeitoso” com o cargo. Uau, que louvável… (Faz-nos rir, presidente!)
Entrementes, ressalte-se que o que é ruim sempre pode ficar pior: a tecnologia social desenvolvida por Lula para tomar posse do PT volta-se agora para o domínio do próprio governo. Dominado o governo, invadirá e controlará todos os aspectos político-sociais do Brasil, à Chávez. Lula já dá por encerrada a peleja 2006 e, por antecipação estratégica, já se prepara vorazmente para a final de 2010. Lutará aí com todas as forças acumuladas nos dois mandatos anteriores por um terceiro, e assim sucessivamente.
Lula não acredita em um Brasil sem ele. Com toda certeza, nunca mais se conseguirá aceitar ver como ex de um tempo glorioso. O mundo inteiro presta-lhe homenagens, todos pensavam que seria um desastre, mas foi espetacular. Não tem curso superior nem nunca leu um livro, mas fez mais por esse País que qualquer outro presidente, que qualquer outra pessoa, que qualquer outro líder para qualquer outro país, da atualidade ou de qualquer outra época. O Plano Real, a auto-suficiência em petróleo, as políticas de transferência de renda, o barateamento da cesta básica, a implantação da TV digital e da eletrificação rural, a universidade para os pobres, a extinção da fome e do analfabetismo no País, até a própria democracia brasileira, para ficar em algumas coisinhas, são todas obras dele. Está a um passo de achar-se o maior personagem da história humana. Não seria justo que alguém tão importante e tão relevante para o País, mais que Fidel Castro para Cuba, Joseph Stálin para a União Soviética ou Hugo Chávez para a Venezuela, deixasse o poder para volta das elites corruptas e incompetentes.
É-se, assim, de ir às lágrimas quando, não obstante tudo, um Eduardo Suplicy vê-se obrigado a elogiar Lula, o dono do seu partido, para não ser alijado completamente da legenda que abriga solícita e satisfeita tantos sanguessugas, inúmeros mensaleiros e sem-número de outros quadrilheiros a descobrir.
Assim como, p.ex., acha “supernatural” a doação de dinheiro a seu filho por um concessionário de serviços públicos, Lula sente-se proprietário particular e exclusivo do PT, a ponto de usá-lo somente onde e na quantidade que for conveniente e deixá-lo guardado em casa quando quiser. A banda decomposta desse “partido” vende seus serviços ao chefe bem baratinho. A parte honesta, ou semi-honesta, parece ter, estoicamente, se resignado ao canto de sereia dos votos fartos, para tragédia da esperança nacional em melhores tempos públicos.
Será que a felicidade sempre fica no porto em que não paramos? O azul do céu do dia em que não saímos de casa seria sempre mais belo? O candidato que não ganhou governaria sempre melhor? Sofreríamos mais por tempos idos que não vivemos ou por tempos findos que não sabemos? Estaremos eternamente condenados a sentir saudades do futuro?
Enquanto as respostas não vierem, mesmo que “sopradas pelo vento”, que se saia do marasmo petistas não-PTralhas e simpatizantes, pessoas honestas de todos os partidos e movimentos político-sociais, revoltados contra e a favor, que gritem de braços dados e fulminem as elites partidárias assoreadas pelo bandoleirismo das incursões penais dos correligionários tradicionais:
FUNDAMOS UM NOVO PARTIDO, O PARTIDO DA ÉTICA!!!
O Partido da Ética seria, em princípio, dirigido por Conselhos efetivos, para evitar os personalismos que tanto mal fazem às estruturas partidárias e melhorar a dinâmica democrática interna, mas sempre sem esquecer a importância dos agentes políticos como seres individuais e coletivos ao mesmo tempo.
Conselho Dirigente:
Eduardo Suplicy, com sua imprescindível pregação no deserto em prol de renda e ética mínimas, embora com serenidade excessiva; Cristovam Buarque, com seu enfadonho, mas fundamental, samba de uma nota só; Denise Frossard, com sua postura de mãe-juíza rigorosamente inflexível ao lado da lei; Jefferson Péres, com sua cultura preciosa e seriedade demolidoras das versões questionáveis.
Conselho de Mobilização Popular:
Heloísa Helena, com seu ingênuo porém empolgante socialismo infanto-juvenil pré-globalização, a fazer dos insultos genéricos eficiente bordão publicitário específico; Fernando Gabeira, com seu canhão cor-de-rosa de flores corajosas contra os estrumes, os cavalos, e os bandidos do Congresso; Pedro Simon, com seu jeito Dom Quixote ao viver dentro de um moinho de almas, o PMDB (Partido dos Monstrengos Demagógicos Brasileiros);
Conselho de Política e Ética:
Líderes partidários que não se venderam, Robertos Freires, talvez Lupis e Arthures Virgílios.
Conselho de Fiscalização:
Os próceres das várias CPIs, Serraglios, Delcídios, Biscaias, Jungmanns, e outros, a maioria do lado ainda bom do PT.
Nesses e noutros conselhos, talvez até gente do PSDB, PFL, PMDB e outros partidos, além de participantes de movimentos político-sociais e pela ética, incluindo entidades de classes relevantes, como a Transparência Brasil, o Instituto Ethos, a OAB e a ABI, mesmo gente quiçá mais tímida e menos visível, mas não menos relevante para a construção de um novo cenário da ética na política nacional; enfim, que sonho se esses políticos e agentes sociais do bem reunissem-se em um novo partido político, no qual poderíamos confiar, posto que os que eventualmente se desviassem seriam, oferecido o contraditório mas sem rodeios de cúmplices, rapidamente defenestrados para dentro da sarjeta imunda do ostracismo merecido, ao som de purificadores e catárticos mantras heloíso-helenísticos.
Sei o quanto seria difícil a convivência minimamente harmoniosa de tantas “estrelas” em um só partido: a fogueira das vaidades queimaria a todos? Se Lula ganhar a reeleição e não conseguir perpetuar-se no poder por meio de referendos, quem seria o candidato do Partido da Ética a presidente da República em 2010? Quem seria o presidente formal do partido? E os outros cargos da direção? O programa partidário, feito por gente ideologicamente tão díspar, seria algo mais compreensível que o caos metafísico pré-filosofia?
Como se portar frente a Lula quando ele arrostar a democracia? Como mover esse partido de gigantes com diferentes objetivos? Como dar coerência a tantos projetos às vezes até excludentes? Não sei de nada, somente acho que ou todos abrem mão de algumas individualidades e trabalham no projeto comum de não permitir a venezuelização do País, ou todos perdem tudo.
Não correríamos o risco de fomentar uma espécie de ditadura de partido único? Não. Outros partidos continuariam a existir e disputar democraticamente espaço para seus programas partidários. Em futuro que utopicamente espero próximo, o Partido da Ética poderia até ser dissolvido, por esgotamento da sua proposta original, quando a maioria dos outros partidos do País também tornar-se ética. Além do mais, com as cláusulas de barreira, partidos majoritariamente éticos, como o PPS, o PV e o P-SOL, e éticos em boa parte, como o PDT, já estão com grande probabilidade de ser dissolvidos, fundidos ou incorporados a partidos maiores.
O próprio Lula deve aglutinar em torno de si a malta governista do PMDB, a parte não-recomendável do PT, os três porquinhos mensaleiros sanguessugas (PP, PL e PTB), a esquerda venal (PSB e PC do B), além dos negocistas avulsos de sempre, para formar um partidão, formal ou informal, com a finalidade de dar-lhe sustentação congressual e apoiar seu projeto de eternização do império lulista. Considerando que o PSDB e o PFL são eticamente vacilantes e oposição inconsistente, o Partido da Ética seria ainda a única força organizada e legítima que lhe poderia fazer frente em futuro próximo.
O Partido da Ética não trataria apenas de Ética, por óbvio. Tudo que há em termos programáticos nos outros partidos, também haveria nos seus Estatutos e Programa Partidário. Educação, Saúde, Segurança, Ciência e Tecnologia, Economia, Políticas Fiscais, Tributárias, Previdenciárias, Ambientais, Urbanas e Rurais, de Indústria e Comércio, Orçamento, Reformas, Relações Exteriores, Estado, Federação, Agronegócio, Relações no Campo, Comércio Exterior, Integração, etc., rigorosamente tudo estaria no âmbito do Partido da Ética, mas com a compreensão fundamental de que as ações mais maravilhosas podem ser perder completamente se não houver controle ético sobre seus executores.
Tomando-se aqui Ética como aquilo que impede que alguma minoria leve vantagem indevida contra os interesses da maioria.
Como saber se uma ação política é ética? Simples: não havendo impedimentos em relação à segurança nacional nem a sigilos, é ética toda ação que pode ser publicada na imprensa livre e não é ética aquela que, se publicada, daria algum problema aos seus executores. Entre as que envolvem segurança nacional, são por certo éticas as que venham, em futuro previsível, a poder ser publicadas sem problemas aos seus executores. Não éticas as que nunca poderiam vir a público sem dar dor de cabeça aos seus agentes.
Como diferenciar as éticas das sigilosas? As sigilosas, se vindas a público, dariam algum problema aos envolvidos, não aos executores em si.
Se as dificuldades parecem infinitas e inexpugnáveis, lembremo-nos da lição do profeta bíblico Abdias, de que os fracos devem unir-se em solidariedade recíproca para ter a mínima chance de vencer os opressores. Assim, com um sonho na mão, a força no coração, e na cabeça a razão, não nos detenhamos na construção do único futuro possível ao nosso País: ou o Brasil acaba com a corrupção, ou a corrupção acaba com o Brasil.
Infelizmente, chegamos a um tal ponto de degradação moral das práticas políticas que se não houver um partido forte que lute o tempo todo contra a corrupção, e tenha centro absolutamente bem definido na luta pela ética, nunca mais sairemos desse atoleiro no qual nos encontramos, reféns da podridão, do desencanto e da desesperança.
Afinal, quem quer ser presidente, político importante, ou sujeito social relevante em uma nação em frangalhos?
Ademais, que discussões épicas e extraordinárias poderiam acontecer no interior do Partido da Ética: imagine-se a intrépida Heloísa debatendo com o fleumático e anticarismático mas firme Cristovam se as escolas deveriam receber investimentos em infra-estrutura em assentamentos de sem-terra ainda antes ou somente após a reforma agrária. Ou os poços de candura Suplicy e Jefferson Péres discutindo acalorados sobre financiamentos públicos de campanha e conceitos criminais adequados ao caixa 2 eleitoral. Ou a rígida e doce Dra. Frossard repreendendo suave descompostura por confusão jurídica utilizada teatral e didaticamente por Pedro Simon, em aconselhamento a algum poderoso em apuros. Seriam, quando nada, memoráveis e inesquecíveis momentos de puro deleite cívico!