Junho de 2006


“Quando as pessoas vêm para o hospital e morrem na mão do Jatene, mesmo que ele tenha feito um erro, todo mundo morre satisfeito, morreu na mão do melhor. Isso é como o Zico perder um pênalti, ninguém vai dizer que ele é grosso, ele errou. ”

(Lula, em visita ao Hospital das Clínicas, tentando “elogiar” o médico e ex-ministro da Saúde Adib Jatene e, pelo que falou, quase tendo sido obrigado a internar-se ali mesmo, na ala de neuropsiquiatria)

PT: Poseidon-Titanic.

Lula declarou que responderá aos “tiros” dos adversários com “pétalas de rosa”.

Se fosse um país com altos índices de educação, escolaridade e cultura, não haveria tantos e tão graves problemas no Brasil, como o desemprego, a criminalidade, a miséria, a poluição e destruição do meio-ambiente, as variadas formas de corrupção, a delinqüência e a prostituição infanto-juvenis, o trabalho escravo, o comércio de seres humanos, o desequilíbrio demográfico, a desesperança social, o governo Lula.

Quando pessoas honestas defendem o presidente Lula, alegando que ele “é culpado, sabia do mensalão e do resto…”, mas, porém, todavia, “…não há ninguém melhor que ele para colocar em seu lugar”, caio em profunda desilusão com o nosso País. Tal argumento, no fundo, parece ajudar a justificar (ou ser usado para justificar) o sepultamento da própria idéia de impeachment e, até mesmo, de investigações mais profundas sobre os subterrâneos do mensalão e de outros escândalos do atual quadriênio de poder, que, seguramente, tenderiam a revelar quase a totalidade dos facínoras públicos vivos de vários escalões e várias gerações, “ideologias” e geografias.

Corolário inevitável (perdoem-me os otimistas e os loucos): nunca mais haverá nem vestígios de decência ou moralidade política no Brasil. Por um singelo motivo numérico, fatalidade aritmética: para cada Eduardo Suplicy parece haver dez Idelis Salvattis, para cada Jefferson Péres, dez Neys Suassunas, para cada Fernando Gabeira e Denise Frossard, dez Severinos Cavalcantis, cinco Sarneys e cinco Calheiros, e assim sucessivamente, em progressão depressiva.

Em perfeita sintonia com tal maioria esmagadora, Lula rompeu todos os limites, arrebentou a boca do balão da corrupção, comprou e foi comprado como nunca na história, lambuzou-se em desbunde apoteótico de manipulação dos sentimentos éticos de grande parcela da população brasileira, conseguiu tornar mais tristes estes nossos já tristes trópicos, mais trágico este nosso já trágico País. E daí?

Daí nada, o Lula de 2006 é o mesmo de 2002, o alegre e sorridente candidato por excelência de oposição “paz-e-amor” ao governo FHC! Só isso, nada mais. Não construiu nada, nada desconstruiu, apenas assumiu, continuou e turbinou em causa própria todos os vícios e esquemas de desvio de recursos públicos do governo anterior, detonando ou enfraquecendo suas virtudes onde foi possível. Só isso, e mais umas esmolinhas com dinheiro público para os miseráveis, que são muitos, conjugadas com massivas e ilícitas campanha reeleitoral e propaganda pessoal, escoradas ilegal e imoralmente no cargo, e, lamentavelmente, periga ganhar de lavada a reeleição, já no 1º turno.

Lula 2006 esbanja a mesma cara-de-peroba do ético de pau-oco de 2002. O País está uma vergonha, à beira de um desastre caso o cenário internacional deixe o céu de brigadeiro da prosperidade universal que abençoou o governo Lula até agora, pois:

1. Nenhuma das reformas estruturais imprescindíveis para seu desenvolvimento sustentável foi feita (tributária, política, trabalhista, sindical, agrária/urbana, do sistema financeiro, além da previdenciária de verdade, que não apenas jogasse em cima dos trabalhadores - aposentados ou não - o peso da irresponsabilidade atuarial e desvios de recursos dos desgovernos de ocasião, além da tradicional roubalheira generalizada dos benefícios fraudulentos).

2. Quando não retrocedemos, progredimos apenas filigranas em direção à melhoria da educação, saúde, segurança pública, jurídica e institucional, política orçamentária e ciência e tecnologia públicas básicas para crescimento auto-sustentável e distribuição não-demagógica de renda.

E daí? Daí nada, Lula só pensa em reeleger-se e, fortalecido, safar-se das poucas investigações sobre os seus crimes que ainda podem trazer-lhe algum incômodo, retaliando com violência sub-reptícia os responsáveis por elas, para que nunca mais pensem em mexer com ele de novo. A “solução Celso Daniel” não estaria de todo descartada, pela eficiência e didatismo.

Até a bagunça ideológica versão 2006 ajuda Lula: não se consegue compreender direito a polarização esquisita entre a centro-direita de esquerda (PSDB-PFL-PPS), representada pela dupla caipira Geraldo-José, que pede juros menores, maior crescimento e menos corrupção, e a centro-esquerda de direita (PMDB-legendas de esquerda de aluguel), personalizada no monstrengo Lula-Sarney-Calheiros, que ignora o assunto corrupção, promete continuar no caminho neoliberal estrito, que, para eles, “está dando certo”, mas flexibilizado para “o bem de todos e felicidade geral da nação”. O discurso de idéias virou de pernas pro ar, com os sinais trocados. Vai entender a política brasileira…

E o mais incrível é que a maioria das seitas políticas que compõem o PT não só odiavam intestinalmente o PMDB no passado, como o continuam odiando no presente e continuarão a fazê-lo no futuro, sentimento completamente recíproco na maioria dos Estados… E daí, se o butim em jogo é suficiente para acalmar os ânimos mais inflamados, as mais belas brigas, as histórias de vida mais bonitas?

O maior problema de Lula é como continuar, a partir de 2007, o esquema de compra de votos parlamentares e enriquecimento ilícito de seus laranjas, como seu filho Lulinha e seus compadres Paulo Okamotto e Roberto Teixeira, sem o uso de malas de dinheiro em espécie ou transferências explícitas de numerário, o que se tornou muito perigoso com a intensa exposição pública pela imprensa livre das mazelas éticas do seu governo.

Lula mentiu demais, mentiu a vida inteira, construiu toda sua trajetória política em torno de mentiras, continua mentindo sem qualquer cerimônia, em qualquer cerimônia, e continuará descaradamente mentindo, mentindo muito, mentindo demais, pelo menos uma ordem de grandeza mais que o nível de mentira normal no submundo político. E daí? …

Cada ano de estudo ou real de renda na média dos eleitores tira alguns pontos de intenção de voto em Lula. Sem os miseráveis econômicos e culturais do Brasil companheiro, Lula não estaria na iminência de ganhar um segundo mandato presidencial, mas merecida cela em presídio de segurança máxima. Interessaria um átimo a Lula que melhorasse de verdade o nível socioeconômico do País?

O Brasil de hoje é o país dos sonhos de Lula. Sem os famintos aos quais dá cestas básicas, sem os carentes rurais a quem dá bicos de luz (tudo com dinheiro nosso, dos impostos), e sem os pobres pobres que acreditam piamente que os alimentos nas feiras estão mais baratos por causa dele, Lula estaria eleitoralmente frito.

Propiciar a essas pessoas educação de qualidade e emprego (entendido como trabalho útil recompensado por fonte de renda digna), para que pudessem comprar seus próprios alimentos, reformar e colocar energia elétrica e água encanada em suas casas, etc., além de começar a entender a realidade político-social à sua volta, embora fosse o correto como política governamental, é muito mais complicado e demorado, talvez desse apenas para começar em um ou dois mandatos, então deixa pra lá… Na Escola de Política de Resultados em que os coronéis nordestinos que se locupletaram com a Indústria da Seca se formaram, Lula foi expulso por picaretagem!

O quebra-quebra promovido por um dos braços vândalos do PT no Congresso Nacional foi apenas um aviso de Lula, manipulando os desesperados órfãos da promessa mentirosa e inviável da reforma agrária, uma advertência inesquecível ao País acima da linha de miséria que não o aprova, que a Democracia não passa de um conceito “burguês” que nada lhe vale. Se precisar, Lula sinaliza “com veemência”, não terá nenhum problema em pisoteá-la violentamente, já que “o povo” (o voto do povo), com o qual teria uma delirante “comunicação direta, sem a mediação de partidos políticos”, é o que lhe importa.

Não nos esqueçamos que a maior contribuição de Lula à Democracia brasileira, além de greves corporativas nos idos anos 70 e 80, foi fazer, com sua empáfia inesgotável de sempre, com que ele e os outros constituintes do PT votassem contra e não assinassem a Constituição de 1988, pois ela “seria de direita, capitalista, e não estaria à altura do povo brasileiro”. (Salvador da Pátria, ou, melhor, Salvador do Mundo, ele, como todos os ditadores, sabe como ninguém manipular o imaginário e os desejos mais íntimos do povo, em proveito próprio).

Lula, coitado, deve ter extrema dificuldade cultural e intelectual em compreender que o mundo é um sistema dinâmico extremamente complexo, cuja evolução se sujeita a grandes vicissitudes, idas e vindas, fluxos e refluxos, ondas e reveses, em vaivéns de ciclos, epiciclos ou espirais, tudo entrelaçado e interpenetrado, onde tudo parece fluir mesmo quando nada parece andar e vice-versa, ufa!… Definitivamente, a compreensão do mundo, que não seria para amadores, o seria muito menos para analfabetos.

Não obstante, Lula parece achar que a história do mundo, a jornada do universo, só teve um objetivo: alçá-lo à condição de presidente da República do Brasil. O País, o continente, o mundo, a história, estavam completamente errados antes de sua ascensão; com sua vitória em 2002, ficaram, em passe de magistral mágica, completamente certos. Simples assim! Se ainda persistem alguns probleminhas, é para que ele não fosse apanhado nas armadilhas do tédio.

Em recente declaração, considerou-se “enviado de Deus” para presidir o Brasil. E para liderar o mundo, por certo, pois Deus não pode pensar pequeno. Acho que esse tipo de pensamento insano-religioso-messiânico explica a última proeza do Imperador: transformar o outrora apaixonável “maior partido de esquerda-sindicalista do mundo” em reles legenda de aluguel do PMDB, um partido de frentes oportunistas de poder que nada tem de apaixonante.

Não sei por que, vem-me à mente a canção “Quem te viu, quem te vê”, do Chico Buarque:

“…
Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer
…”

Com perdão do Chico, penso em versão mais próxima do atual momento:

“Hoje o samba saiu, Lula lá lááá, procurando você,
Êêê PT, êêê PT,
Quem te viu, quem te vê…
Êêê PT, êêê PT,
Quem te viu, quem te vê…
Quem jamais o esquece não pode reconhecer…
Quem não o conhece não pode mais ver pra crer…”

Quando, em regime presidencialista, o presidente aceita abrir mão “integralmente, completamente” do poder a ele concedido pelas urnas, emanado pelo povo soberano, sobre largo naco da Esplanada dos Ministérios, de extenso orçamento, para outro partido do qual não é filiado e pelo qual não foi eleito, para que esse partido possa ocupá-lo a bel-prazer, “de forma fechada, de cabo a rabo, sem interferências, com a prerrogativa de nomear e exonerar quem quiser e na hora que quiser”, esse conchavo, com fins exclusivamente eleitoreiros, não seria alugar a própria legenda?

Pode ser que a partir de 2007 (ou antes), venhamos a ter, como durante um curto período no regime militar, o Brasil sendo governado por uma junta presidencial composta por Lula, Renan Calheiros e José Sarney. A luta deve ser bastante renhida para ver quem manda mais, dentro do novo triângulo mágico.

O que acharia disso Quem “enviou” Lula para presidir o Brasil?

Quem vota em ladrão, sabendo que é ladrão, não pode reclamar da corrupção!!!

Lula: “– Ô Parreira, é verdade que o Ronaldo está gordo?”
Parreira: “– Ô Lula, é verdade que sua conta bancária está gorda?”

Granja do Torto.

Vivemos tempos sombrios. Dos três maiores e mais em evidência criminosos do País, um seria hoje reeleito à Presidência da República no 1º turno; outro é bem-sucedido empresário, miliardário e multipartidário (ninguém sabe se mais influente e temido pelo que, ou pelo que não, sabe); e o terceiro, ainda que dos três seja o único “preso”, tranqüilamente dirige com mão de ferro sua nação de malfeitores como um rei despótico em terra de ninguém, sem maiores dissabores, em segurança, protegido por exército de advogados-cúmplices e pela parte corrompida da Polícia, da Justiça, do Ministério Público e do Governo do nosso maior Estado.

Mas sejamos justos e reconheçamos o mérito desses três valorosos companheiros: se algo dá trabalho nesse mundo é manter estruturas criminosas, sejam de malfeitores, maus gestores ou maus pretores. Os três gênios do crime descobriram, em lampejo de brilhantismo, que o verdadeiro sucesso não se faz com esforço, estudo, trabalho, leitura, cultura, conhecimento, altruísmo, hombridade, ou todas estas baboseiras de virtudes de perdedores que inundam a vida dos derrotados, e sim com uma cesta básica de banditismo cuja única coisa indispensável, a ser esgrimida diuturnamente com maestria e sem quaisquer escrúpulos, contra todos, inimigos e amigos, aliados e adversários, é: a Chantagem.

A boa e velha chantagem, que decide guerras e amores, destinos de nações e de beijos, uma vida inteira ou um passeio na esquina, como Shakespeare ensinou-nos, ao inventar o humano na Literatura ocidental. E nada que é humano deve ser-nos indiferente.

Marcola chantageia os meios policiais com ameaças ostensivas de ondas de violência pública; Daniel Dantas chantageia os meios políticos com ameaças veladas de revelações da promiscuidade público-privada de vários mandarins da República; e Lula chantageia os meios institucionais com ameaças sutis de investidas contra o regime democrático e a estabilidade econômica.

Temos prontas explicações para o sucesso da trindade renegada: os celulares nas celas, as privatizações, a legislação eleitoral. O sistema penitenciário, a estruturação societária, o sistema presidencialista. A legislação penal, a regulamentação das telefônicas, a culpa sociológica das “elites”. A mídia, o capitalismo, a imprensa, a “direita”, as “elites brancas”. Eles e nós, nós, povo, e eles, celebridades do crime - simples produtos dos seus meios, vencedores contra suas origens e contra o mundo sempre hostil -, não temos, ninguém tem, absolutamente, nenhuma culpa. Fome zero, culpa zero. Apenas “o Sistema” é culpado. Que bom! Não tenhamos medo de ficar felizes.

Não pretendo entristecer ninguém, mas a única explicação plausível para a criminalidade em questão, todavia, é uma só: impunidade, um montão de impunidade e mais impunidade, amalgamada à imensa propensão pessoal do nosso trio de ouro para o crime. Estatisticamente, quase nenhum pobre transforma-se em criminoso, quase nenhum retirante nordestino transforma-se em líder sindical carreirista ou político desonesto. Em maior ou menor proporção, todos somos culpados, por nossa conivência com a impunidade por ação ou omissão, em maior ou menor grau.

As carreiras dos três ases são, certamente, pontuadas por rosários de cadáveres (em sentido ou figurado: político, econômico, ético-moral; ou físico mesmo), sem nunca sofrerem maiores sanções em suas trajetórias ascendentes de violência, banditismo, sociopatia, formação de quadrilhas e caixas 2 e 3, enganação e rasteira em aliados, dissimulação, manipulação de relações político-econômico-afetivas, mentira de ideais, falsidade ideológica, estelionato, extorsão, concussão, prevaricação, uso de amigos/familiares-laranja para lavagem de dinheiro, toda sorte de criminalidade pública e privada, até chegar onde estão.

Não obstante, ninguém faz nada no país “sem-compostura” “do-faz-de-conta” e, enquanto isso, parte expressiva dos escassos recursos do nosso pobre País e da nossa pobre juventude desaparece sem deixar vestígios nesse meliante Triângulo das Bermudas tupiniquim, certamente interligado a vários outros sugadores de orçamentos públicos, privados e domésticos. De que forma unem-se os três vértices desse triângulo mágico e de que maneira desconstruí-lo?