Maio de 2006


Quando deixar a Presidência da República, para não ficar em desvantagem em relação a FHC, que escreveu “A Arte da Política - A História que Vivi”, Lula escreverá não apenas um, mas dois livros: “A Morte da Política - A História que Destruí” e, em homenagem à sua paixão pelo futebol, “Deformando Equipes Vencedoras - Lições de Lulambança e Prevaricação: das Peladas de Fim de Semana aos Negócios Escusos com Dinheiro Público”.

A suposta fraqueza nauseante do governo Lula em insistir em nada fazer contra as recentes ousadias bolivianas agressivas e humilhantes para o Brasil, o que tem gerado crescente perplexidade em solos pátrios e alhures, deve tratar-se de estratégia de defesa e encontrar explicação no padrão do descalabro da já conhecida lulambança administrativa: consubstanciar-se-ia em novo tipo de chantagem em cima da velha e trivial corrupção, em sentido pleno do termo, mas agora de outro nível, em esfera superior de atuação, a globalizada.

Ao receber dinheiro das FARC, dólares oriundos de Cuba, “doações” de “empresários” angolanos do ramo dos bingos, e outras fontes criminosas internacionais, para as campanhas de Lula e outros candidatos e para irrigação dos caixas 2 e 3 das bases governistas, do PT e de petistas de grosso calibre, esses beneficiários deveriam saber, qual Fausto do séc. XXI cercado por Mefistos por todos os lados e sem ajuda de um único anjo sequer, que quem faz pacto com diabos globalizados tem um dia que entregar-lhes a alma nacional.

Além de uma “agenda diplomática oculta”, é bastante provável que haja um caudaloso caixa oculto continental, alimentado por atividades ilícitas de variados tipos e extensões além-fronteiras, mais ou menos compartilhado, para financiar os delírios de poder da nova turma do barulho na América Latina.

Para sermos justos, devemos reconhecer que talvez o governo Lula realmente seja o pioneiro em alguma coisa no mundo: a globalização da rede organizada e orgânica da corrupção e do caixa 2 governamentais.

Se Sílvio Pereira, Marcos Valério, Delúbio Soares e mais qualquer um de uns quinhentos pobres-diabos têm munição mais que suficiente para pôr a pique este governinho sem-vergonha, imaginem o estrago que poderia causar a bomba atômica detonada por revelação de Fidel Castro e Hugo Chávez, em escala planetária, sobre, por exemplo, detalhes dos famosos “dólares de Cuba” denunciados pela revista Veja, confirmando a ocorrência da ilícita operação clandestina e indicando sua origem numa espécie de caixão 2 supranacional. Seria gritar “Ah, eu tô maluco” e correr para o abraço!

Assim, destarte estaria “tudo dominado”!

Nessa soma de todos os medos residiria a apática inação governista às violentas e gratuitas agressões. Ante o incompreensível mutismo de Lula, para dizer-se “indignada” ao vitupério de Evo Morales ao declarar em fórum internacional que a “Petrobras é uma empresa criminosa”, a diplomacia brasileira chegou a declarar que “se a imprensa disser que estamos indignados, não negaremos.” Que raios de reverência é essa? Por que estão morrendo de medo do desarticulado e esquálido companheiro Morales?

O agressor parece ter absoluta certeza das inexpugnáveis amarras do agredido e por isso supervaloriza às alturas o preço da paz possível, almejada por Lula por absoluta necessidade de sobrevivência reeleitoral, por constituir-se no único caminho capaz de neutralizar a pesada retaliação que resultaria da chantagem não satisfeita.

Coitadinhos de Lula e do PT: estão nas mãos de chantagistas de todos os tipos, de desempregados desqualificados a chefes de Estado. Mais coitadinhos ainda, todavia, os brasileiros, que estamos nas mãos de todos eles, exercendo, como sempre, a única profissão que aprendemos até hoje: a esperança, de braços cruzados.

Em recente entrevista sobre o lançamento de seu novo trabalho, o CD e DVD Carioca, o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda declarou, sobre seu controverso envolvimento com drogas no passado, que já fumou maconha, usou ácido, cheirou cocaína e votou em Lula.

Lula deveria ler o primeiro livro em sua vida. Aconselho um título: “O Valor do Amanhã”, do economista e sociólogo Eduardo Giannetti. Talvez ele descobrisse que o amanhã cobra sempre, inexoravelmente, o preço do que é gasto adiantado no hoje.

Então, ao invés de defender arroubo demagógico de suposta soberania da Bolívia (contra soberanias e contratos com outros países), qual populista boliviano (esquecendo-se que é populista brasileiro), poderia explicar ao companheiro Evo Morales que devemos tomar extremo cuidado com as “escolhas intertemporais” quando pedimos emprestados ao futuro grande prazer, compensação ou glória presente que, em verdade, não nos pertence. O futuro, mais cedo ou mais tarde, mas sempre mais cedo do que esperamos, cobra seu preço, acrescido de juros, os quais até podem ser justos, mas geralmente são altos demais ou, no limite, até infinitos!

Se Evo Morales entrasse numa instituição financeira e pedisse algo como 5 bilhões de dólares emprestados, a prazos, carências e juros internacionais, para aplicar na compra de ativos de propriedade de empresas estrangeiras com investimentos na Bolívia, diríamos que ele teria ficado louco. Um país tão pobre não se pode dar ao luxo de, por liberalidade, pagar juros tão altos! Cristalinamente óbvio.

O companheiro boliviano ou tem uma carta arrasadora na manga, ou fez algo terrivelmente pior.

Famintos bolivianos, brasileiros, venezuelanos, ou de qualquer outro lugar do mundo, sempre têm pressa, como lembrava o saudoso Betinho. E para quem tem fome, não há outro remédio que não seja comida. Seguindo a linha de raciocínio, desempregados querem empregos, trabalhadores, aumento de salário, classe média, não virar desempregada. É bonito ouvir a palavra “soberania” sair da boca cheia de um presidente, mas quando ela começar a prejudicar a vida do povo, esqueçam-se a retórica e as boas intenções, pois terá chegado a hora de o futuro começar a cobrar sua fatura.

E quando baixar a poeira e a nacionalização dos hidrocarbonetos revelar ao povo boliviano que riquezas minerais não passam de riquezas potenciais e não valem nada, rigorosamente nada, sem conhecimento científico-tecnológico e infra-estrutura para exploração econômica viável, bem como mercado onde vendê-los? E que conhecimento, infra-estrutura e mercados não se adquirem por decreto presidencial, mesmo os supremos ou divinos, mas com uma árdua, demorada e cara capacitação educacional e de gestão empresarial e pública?

Que acontecerá quando ficar claro aos pobres bolivianos que sem investimentos externos qualquer economia em um mundo globalizado está fadada à estagnação e à indigência, principalmente as pequenas? E que investimentos externos (e também os internos) não têm coração, não se preocupam em ajudar ninguém, apenas aportando em lugares onde tenham um mínimo de confiança no retorno em forma de lucros, abominando qualquer coisa que lembre, mesmo que muito vagamente, desapropriação, expropriação ou confisco? E que em economias isoladas e estagnadas os pobres são os que mais sofrem?

E quando descobrirem que as riquezas “nacionalizadas” pararam em piores mãos, sob controle de Hugo Chávez?

Com o gesto grandiloqüente, pode ser que Evo Morales tenha selado sua vitória nas eleições seguintes, mas pode ter adiado por uma ou duas décadas a chance de a Bolívia dominar integralmente o processo completo de geração de riquezas nacionais por intermédio de indústria energética própria, o único motivo que poderia fundamentar e legitimar medida tão drástica.

Por mais que a história se repita em todos países subdesenvolvidos, nunca aprendemos: nestes casos de sucessivos usos privados dos adiantamentos pedidos emprestados ao futuro, concomitantes com pagamentos coletivos dos juros altíssimos, as escolhas intertemporais revelam-se particularmente dramáticas e, não raro, trágicas, na célebre dicotomia da capitalização pessoal do lucro e socialização do prejuízo.

No lamentável ciclo de deboches em que se transformou nosso atual governo, em mais um episódio triste, o governo Lula repete com maestria a tática adotada no tratamento do mensalão, que elevou o cinismo ao patamar de estratégia de Estado: finge que a crise Bolívia-Brasil não existe, que não é com ele, que não é grave, que é intriga da oposição, que apareceu apenas por exploração eleitoreira, que na verdade começou no governo FHC, que não sabia e foi pego de surpresa, etc.

O rompante anunciado do presidente Morales é grave, e a reação do governo brasileiro, preocupante:

1. durante toda a última eleição presidencial boliviana, o bordão preferido de Evo era explicar a pobreza do seu povo atribuindo-a à exploração das multinacionais instaladas na Bolívia, Petrobras incluída. O governo Lula apoiou integralmente a catilinária simplória, sem reparo de uma vírgula sequer, displicente, óbvia e inocentemente legitimando-a;

2. depois de empossado, Evo Morales passou a ter Hugo Chávez como mentor, colaborador e assessor direto. O governo brasileiro fechou os olhos ao perigo latente;

3. com o ato nacionalizatório (nacionalizador e autoritário), o presidente Morales mandou o exército boliviano ocupar as petrolíferas estrangeiras, inclusive a sede da Petrobras, e determinou a “negociação” mais estranha que já terá ocorrido no mundo dos negócios: a Bolívia reescreve contratos, define unilateralmente as cláusulas e às outras partes (partes?) envolvidas concede, para provar o quanto é condescendente, o direito de aderir ou ir embora, se quiser.

Lula acostumou-se tanto a mentir em todas as instâncias da vida pública e a lançar tantas promessas vazias ao vento, as quais o povo esqueceu sem cobranças, que sua grande surpresa deve ter sido descobrir que Evo Morales cumpre o que diz, mesmo que seja sandice dita no calor da batalha eleitoral para ser “flexibilizada!” depois de ganha a eleição, como sói acontecer no reino petista, no aconchego dos palácios.

Na fratura exposta, a primeira coisa que deveria ser exigida por um governo minimamente interessado em ser, ao menos pifiamente, respeitado por outros países, seria a retirada do exército das instalações de suas empresas, com pedido formal de desculpas, posto que não se vislumbra, por absurdo, que brasileiros funcionários dessas empresas fossem roubar ou subtrair alguma coisa, sabotar a produção ou atentar contra a segurança nacional boliviana, únicos casos que justificariam a ocupação militar.

O que ocorreu, entretanto? Lula aceitou fazer parte, em currutelinha argentina, de um teatrinho de fantoches manipulado por Chávez e teleguiado por Fidel no qual sobrou para o “Nosso Guia” (Deles?) o vexame de declarar, visivelmente contrariado, que ajudará Morales a subjugar a Petrobras, a quebrar contratos assinados em comum acordo, e a aumentar preços para o próprio país que preside “… porque eles (bolivianos) são pobres!”.

A foto publicada em vários jornais em que Morales, ao final do encontro, rindo debochada e prazerosamente, segura Lula por trás, este com expressão de dor disfarçada em sorriso amarelo, é sumamente emblemática: pela primeira vez na história, um líder operário brasileiro curva-se, quase literalmente, para um líder indígena boliviano! Viva a integração sul-americana!

Brizola dizia que Lula pisaria no pescoço da própria mãe para ganhar a eleição para presidência do Brasil. Para ganhar a reeleição, pisaria não apenas no da mãe, mas também no pescoço da Petrobras, da diplomacia, dos interesses nacionais, dos consumidores, dos contratos e plantas energéticas do País, da racionalidade das relações entre nações. Para sagrar-se vencedor, pisaria ainda, enfim, como está pisando, na goela da verdade até a estrangular e sufocar.

Populistas de todos os quadrantes, aguardem: apesar do hoje, o amanhã romperá, cobrando seu preço. E, como em toda manhã que se preze, pássaros começarão a cantar, tecendo uma nova e, dentro do possível, redentora versão dos tristes fatos recentes que fiaram a atual crise política: a da Verdade.

Filho: “– Pai, qual a diferença entre acidente e desastre?”

Pai: “– Você sabe o Rio Tietê, em São Paulo?”

Filho: “– Sei. Que que tem?”

Pai: “– Se o Lula caísse lá dentro, em dia de chuva forte, seria um acidente.”

Filho: “– Entendi… E desastre?”

Pai: “– Desastre seria se alguém tirasse ele de lá!”