Março de 2006


Caro Serraglio,

O povo brasileiro pede encarecido: apresente seu Relatório Final com dignidade e concordante com as conclusões técnicas que se impõem à luz dos fatos, contra manipulações eleitorais e reeleitorais. Basta que o senhor o leia e o apresente à imprensa livre do País. Mesmo que não aprovado, será publicado e reverberará como o resultado fidedigno das investigações da CPMI dos Correios, protegido das artimanhas que fatalmente o porão a perder, se se insistir na insana busca de um consenso eticamente impossível, desde que com os próprios representantes e defensores dos investigados e indiciados.

A Verdade prevalecerá, mesmo que não tenha votos suficientes na Comissão.

Quando todo mundo achava que a dep. Guadagnin tinha enlouquecido e perdido o juízo ao dançar regateira em pleno plenário da Câmara dos Deputados, supostamente de alegria pela salvação dos mensaleiros, descobriu-se o real motivo da sua felicidade: naquele momento, por coincidência, ela teria sido informada que fontes da PF haviam acabado de relatar ao governo a notícia-bomba, que implicará grande reviravolta em toda a investigação sobre a crise política deflagrada pelas denúncias do ex-dep. Rob. Jefferson. Foi encontrado o verdadeiro operador do mensalão.

Com o uso de sofisticado sistema de rastreamento e cruzamento de informações bancárias, desenvolvido pelo FBI com o uso de técnicas de inteligência artificial no estado da arte, um setor de elite da inteligência da PF descobriu o que ninguém suspeitaria: o cérebro por trás do megaesquema de corrupção e compra de votos é o caseiro Francenildo dos Santos Costa, foragido desde a manhã de hoje em lugar incerto e não sabido depois do vazamento da notícia de que o STF autorizara sua prisão.

As notícias ainda são desencontradas, mas o que já se sabe é que o falso caseiro (na verdade um brilhante administrador de empresas com doutorado em Harvard), mentor do esquema com ajuda de setores golpistas da oposição, teria cooptado publicitários e tesoureiros de partidos políticos, os quais coordenariam uma rede corrupta de servidores públicos federais dos terceiro e quarto escalões, e seria titular de centenas de contas correntes bancárias. Uma dessas, chamada de “conta cabeça”, receberia e transferiria às outras, automaticamente em intrincadas triangulações e poliangulações, recursos desviados do governo, sem o conhecimento do primeiro escalão.

A famosa “Casa dos Horrores” atribuída até então à denominada “República de Ribeirão Preto”, não passaria, segundo conclusão do Serviço Secreto da PF, do Quartel General do falso caseiro, que teria aliciado alguns antigos desafetos do min. da Fazenda para, na casa, simular atividades de lobby com seu beneplácito, na tentativa de desestabilizá-lo. Até um sósia do ministro foi contratado para visitar a casa e dar credibilidade à estória.

Ali, o falso caseiro já tinha começado a engendrar um sistema mais perfeito, considerado como um “ciclo completo de caixa 2”, genial artimanha contábil-orçamentária em que parte dos recursos do orçamento de estatais não mais passaria pelo SIAFI, nem pelos setores orçamentários dos órgãos envolvidos, nem pelas contabilidades dos bancos pagadores e fornecedores e prestadores de serviços ao governo, o que tornaria tais recursos públicos virtualmente invisíveis a qualquer fiscalização.

Fontes ligadas a setores de comunicação do Planalto adiantaram à imprensa algumas frases que serão ditas logo mais pelo presidente, em cadeia nacional de rádio e televisão, para anunciar os resultados do trabalho da PF: “- Nos quinhentos anos de República desse País, nunca teve um governo que sofreu uma campanha de falar mal tão grande como o meu, mas eu sempre digo aos companheiros pra não abaixar a cabeça, que mais fala mal os que mais não fizeram bem nos quinhentos anos que foram governo. O negócio do caseiro está aí pra provar que nós tínhamos razão quando eu dizia que ninguém tinha que ficar triste, era só levantar a cabeça e trabalhar, que quem trabalha colhe os frutos que os outros têm inveja porque não trabalharam e não têm o que colher, que nossa massa cinzenta é mais inteligente do que eles pensam…”

Por que tanta celeuma para calar o caseiro? Por que o ódio irracional contra o pobre-coitado? Por que correr tanto risco ao quebrar ilegalmente seu sigilo bancário? Por que se agarrar com unhas e dentes contra a apuração da ilegítima quebra do seu sigilo? Por que mover céus e terras para defesa gritante e intransigente de uma simples mentirinha “inocente” de “foro íntimo”?

Parabéns, dep. Osmar Serraglio, pela postura independente e correta na relatoria e trabalhos de investigação da CPMI dos Correios. Há menos de três anos, eu imaginava impossível que um dia fosse admirar um político do PMDB e sentir nojo dos queridos heróis políticos de então.

Não deve estar sendo fácil para o senhor e demais membros honestos suportar as pressões para abafar tudo, que certamente estão sofrendo. Sigam firmes, por favor, pois aqui embaixo também está difícil manter um fiapinho de esperança.

Acho que o seu Relatório Final tem pouquíssima chance de ser aprovado. Interesses contrariados forçarão, ao certo, apresentação de relatório paralelo, para que nenhum seja votado e aprovado, reprisando o fiasco da CPMI do Banestado. Ou o senhor será obrigado a pasteurizar seu relatório até que não sobre nele nenhum perigo. Entendo. O poder arbitrário não se chama “arbitrário” à toa. Cometerá qualquer arbitrariedade para conseguir seu intento, custe o que custar, passando por cima de quem for preciso, dando a volta por cima de quem ficar na frente.

Quase ninguém, entre os que contam, parece disposto a encarar a responsabilidade de chegar ao fio da meada. Quase todos têm medo, ou interesses, confessáveis e/ou inconfessáveis, ou as duas coisas misturadas aos dois qualificadores.

Quem diria?, quem poderia ao menos sonhar, que um aparentemente simples deputado do baixo clero governista, reles monge tibetano fleumático e invisível, fosse constituir-se, neste crucial momento de inflexão da história do país, no homem mais importante da República, único ainda digno de alguma esperança, uno entre os que poderiam fazer alguma coisa que ainda causa alguma expectativa de que venha a desafiar o imperador e não se curvará.

Parabéns, meu caro Serraglio. O senhor, com alguma certeza, cairá, como caíram todos, mas, mesmo assim, terá sido o último a cair na primavera triste de um país trágico. Ainda que apenas por isso, PARABÉNS!!!